BrasilPolíticaSaúde e MedicinaTodos

Conselho de Medicina no Rio de Janeiro decide nesta terça-feira critérios para fila de UTI, ou seja, a escolha de quem vai morrer

A dois pontos porcentuais da ocupação total dos seus leitos de UTI na rede pública da cidade do Rio de Janeiro, autoridades médicas fluminenses começam a fixar critérios para a fila das vagas de terapia intensiva no Estado. Quem não for escolhido, vai morrer. É uma lista da morte. O Conselho Regional de Medicina se reúne nesta terça-feira, 5, para possivelmente aprovar recomendação de sua Câmara Técnica de Intensivismo aos profissionais que enfrentam a pandemia da covid-19. Sem a força de uma resolução do Conselho de Medicina, o documento orientará os médicos sobre os parâmetros para mandar pacientes para os CTIs. Paralelamente, a Secretaria de Estado de Saúde também discute com entidades um protocolo com objetivo semelhante, a escolha de quem viverá e quem morrerá. Com a explosão de casos, o documento poderá orientar quem, nos hospitais estaduais, receberá cuidados intensivos para lutar pela vida – e quem não terá essa chance.

“O Cremerj não participa de escolhas de Sofia”, disse o presidente do órgão, Sylvio Provenzano, numa alusão ao filme em que uma mãe tem de escolher entre seus filhos: “A saúde é direito do cidadão e dever do Estado. Mas, não tendo vaga, a secretaria terá de priorizar”. Na prática, não há direito algum. Ele acredita que as recomendações do Cremerj e o protocolo da Secretaria de Saúde deverão ter muitas semelhanças, porque se basearão em critérios clínicos já conhecidos, e o conselho e a secretaria mantêm colaboração.

Até o fim da tarde da segunda-feira, 363 pessoas contaminadas ou suspeitas de contaminação pela covid-19 esperavam leitos em UTIs no Rio de Janeiro, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. Só há vagas para portadores do novo coronavírus no Hospital de Campanha Lagoa-Barra, no Leblon (zona sul do Rio) e no Hospital Regional Zilda Arns, em Volta Redonda (sul fluminense). Nessas unidades, os números estão cada vez mais apertados. A lotação no Zilda Arns chegou a 85% na enfermaria e 86% na UTI, segundo a secretaria. No hospital de campanha há 60 pacientes internados – 42 em leitos de UTI. Na capital, a ocupação chegou a 98% dos leitos de UTI e 91% dos leitos de enfermaria.

Será nesse cenário de crescente dificuldade que o Conselho de Medicina vai lançar as recomendações (portanto, não obrigatórias) aos profissionais. Provenzano espera que funcionem como “livro de bolso” para orientar os médicos menos experientes – recém-formados ou com poucos anos de profissão- ou de outras especialidades, como ortopedistas e ginecologistas, envolvidos no combate à pandemia. Os critérios recomendados, disse ele, “estão nos livros de Medicina”. Deverão incluir pressão arterial, oxigenação do sangue, esforço respiratório. Dependendo das leituras, recomendarão que os pacientes vão para a fila da UTI. “Não é decidir quem vai em primeiro, quem vai em segundo. Todos os que precisarem têm de ir. Qual será o critério para botar o paciente na lista?”, questionou Provenzano, explicando o objetivo da recomendação.

Também deverão entrar na avaliação a ser recomendada pelo Cremerj a condição clínica de alguns órgãos, como pulmões e coração, de acordo com o Sequential Organ Failure Assessment (SOFA). Trata-se de um score usado para pacientes de UTIs, que são avaliados sob os pontos de vista respiratório, cardiovascular, hepático, renal, neurológico e de coagulação. Segundo Provenzano, “são critérios internacionais, usados por sociedades de medicina intensiva”.

A Secretaria de Saúde confirmou que tem discutido um documento com orientações aos profissionais de saúde para a utilização de UTIs no enfrentamento da covid-19. A discussão tem sido feita em conjunto com órgãos como Academia Nacional de Cuidados Paliativos/Regional Rio de Janeiro, Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia/Seção Rio de Janeiro, Sociedade de Terapia Intensiva do Rio de Janeiro (SOTIERJ) e Universidade Federal Fluminense (UFF). A Secretaria de Saúde afirmou ainda manter discussão sobre o assunto com o Cremerj e estar analisando protocolos utilizados na Espanha e Estados Unidos.

Uma versão do documento da SES, que circulou na semana passada, apontava, como critérios para ocupação de leitos de UTI, o funcionamento de órgãos segundo o SOFA; doenças pré-existentes, como diabetes, obesidade e hipertensão; idade; e a ordem de solicitação. Ficaria em desvantagem quem tivesse pior resultados de avaliação dos órgãos, tivesse alguma enfermidade crônica prévia e fosse mais velho, além de ter tido a internação pedida depois de outros pacientes.

O presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Carlos André Uehara, afirmou que, no documento prévio, a idade seria apenas um critério de desempate, não parte da avaliação geral. Ele afirmou que é preciso olhar toda a condição clínica do paciente, não quantos anos tem, para tomar decisões médicas. Lembrou que, na Itália, na crise da covid-19, por falta de vagas, inicialmente os idosos com 80 anos eram excluídos – depois, a idade de corte foi baixada para 70 anos. “Nossa posição é a de que a idade não deveria ser critério para nada”, afirmou.

Apesar dos rodeios e floreios, o que está em discussão no Rio de Janeiro é o “protocolo da morte”. É a isso que leva a corrupção, principalmente a que ocorreu no Rio de Janeiro de Sérgio Cabral e Pezão, quando aconteceram monumentais desvios de recursos da saúde. E é resultado também da imensa irresponsabilidade do atual governador, Wilson Witzel, que permitiu desfiles de blocos e escolas de sambas, cada qual com centenas de milhares de foliões, com a chegada de dezenas de milhares de turistas na cidade, isso tudo 20 dias após a decretarão de estado de emergência nacional em saúde editado pelo presidente Jair Bolsonaro. O resultado de tamanha imprevidência, algo criminoso, está estampado agora na edição do protocolo da morte.

Compartilhe nas redes sociais:

Comment here