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Embrapa, a mais importante estatal brasileira, vive um momento decisivo de sua história

EmbrapaCom presidente interino desde meados de julho, a Embrapa, principal instituição pública de pesquisa do País, vive um dilema: como se reinventar, de modo a voltar a responder às demandas do setor do agronegócio na velocidade exigida.

Desde que a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, exonerou o pesquisador Sebastião Barbosa da presidência da estatal, quem ocupa o cargo é o também pesquisador Celso Moretti, na instituição desde 1994. Vários representantes do agronegócio reforçam a necessidade de que, independentemente do nome, é preciso modernizar a estatal, reavaliar a relevância de cada uma das 43 unidades de pesquisa do País, mudar a estruturação de projetos, rever o foco das pesquisas e, o mais importante, estreitar a relação com o setor privado.

O ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV), Roberto Rodrigues, espera uma “ressurreição” da Embrapa. “A realidade da agricultura de hoje é diferente da de quando ela foi criada, há 40 anos”, diz ele. Roberto Rodrigues lembra que há muitas empresas privadas, multinacionais entre elas, fazendo pesquisa agropecuária e gerando variedades novas. “Tem de olhar a realidade da área de ciência e tecnologia no Brasil atual e montar ou recriar uma Embrapa voltada para esse modelo, considerando tudo, agtechs, iniciativa privada, universidades, órgãos públicos estaduais, e montando uma ação articulada, integrada, todo mundo trabalhando na mesma direção. Não pode ter dispersão de recursos”, defende.

Ex-presidente da instituição, Sebastião Barbosa reconhece a necessidade de mudanças e afirma que vinha trabalhando para isso. A geografia da agricultura brasileira se transformou e algumas unidades precisariam, de fato, passar por ajustes ou trocar de lugar, afirmou.

Como exemplo, citou a Embrapa Algodão, que fica na Paraíba, e não no cerrado do Centro-Oeste e do Matopiba, onde estão os maiores produtores. No caso do arroz, 70% da produção brasileira se encontra no Rio Grande do Sul, de arroz irrigado, mas a unidade da instituição dedicada à cultura é a Embrapa Arroz e Feijão, em Goiás.

Ha quem aponte a estrutura “inchada e burocratizada” como um ponto a atacar, com vários centros de pesquisa abertos por “questões políticas” e não científicas. “Se determinado governador pedia para abrir uma Embrapa em seu Estado, era prontamente atendido, sem que necessariamente fosse necessário ter uma unidade ali”, afirmou. Atualmente, a Embrapa conta com 43 centros de pesquisa.

“Há cadeias produtivas que não aproveitam pesquisa da Embrapa, como a de papel e celulose. Então, qual a razão de uma Embrapa Florestas (situada em Colombo, no Paraná)?”, indaga. Outro gargalo, conforme a liderança, é a centralização de decisões na Embrapa em Brasília. “Muitas pesquisas dos vários centros são barradas lá”, diz. No atual governo, acrescenta, a “orientação” para a Embrapa é “reduzir custos”.

“O ministro da Economia, Paulo Guedes, está pressionando a Embrapa a ‘fazer dinheiro’ e a instituição já tem uma lista de imóveis para serem vendidos”. Segundo Barbosa, o gasto de 80% do orçamento com pessoal precisa ser revisto. “Ao longo do tempo, houve uma generosidade muito grande em termos de promoções, em termos de premiação, então grande parte dos recursos da Embrapa foi usada com seu pessoal”, disse.

A Embrapa implantou um programa de desligamento incentivado (PDI), que deve ter a adesão de cerca de 1.500 pessoas. Ele enfatizou, entretanto, que a Embrapa tem cientistas “muito capacitados” para inovação e que a instituição “precisa de ajustes, mas continua sendo muito respeitada em qualquer lugar”.

As primeiras pessoas começariam a sair ainda este mês, segundo Barbosa. Na opinião do vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Pedro Camargo Neto, “está na mão” dos pesquisadores da Embrapa iniciar sua própria revitalização. “Os mais de 2 mil pesquisadores doutores precisam reagir contra a atual orientação, ou melhor, à falta dela, e produzir mais e melhores resultados práticos para o produtor, pois a Embrapa caminha para a mediocridade”, diz:

“A sociedade, o contribuinte de impostos, que tem financiado as dezenas de centros de pesquisa, cansou”. Celso Moretti, rebate as críticas feitas em relação à possível falta de sintonia da empresa com o setor privado. Ele diz estar ouvindo as demandas do setor produtivo e repensando a gestão para atendê-las. Desde o ano passado, a empresa reavalia a estrutura das suas 43 unidades de pesquisa. “Temos trabalhado de forma muito intensa nessa reorganização, buscando dar mais foco às nossas unidades descentralizadas e atacar os principais problemas do agro brasileiro”, afirmou.

Moretti ponderou que metade da área ocupada com agricultura, pecuária e sistemas florestais hoje no Brasil tem tecnologias desenvolvidas pela Embrapa: “A nossa inserção no agro é muito relevante e significativa”. Sobre a limitação de recursos para pesquisa, conta que pretende discutir com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a ideia de formar fundos privados, como nos Estados Unidos, onde produtores reservam parte dos recursos obtidos na comercialização da safra para alimentar fontes de financiamento.

“Também iniciamos nos últimos meses uma negociação com um fundo privado que pretende fazer uma doação para a Embrapa da ordem de R$ 220 milhões”, afirma. “Publicamos neste ano um estudo que mostra que metade da área com agricultura, pecuária e setor florestal do Brasil, ou seja, 130 milhões de hectares, tem tecnologia da Embrapa. Vamos pegar a cadeia produtiva da soja: 35 milhões de hectares de soja têm fixação biológica de nitrogênio, uma tecnologia que a Embrapa desenvolveu e ofereceu para a agricultura brasileira. Trinta e cinco milhões de hectares de soja têm zoneamento agrícola de risco climático, um trabalho que a Embrapa faz há mais de 25 anos. E 35 milhões de hectares de soja têm recomendações de correção de fertilidade e adubação desenvolvidos pela Embrapa e seus parceiros. O Brasil tem aproximadamente 20% do seu território com pastagens. Estamos falando de 160 milhões de hectares. Cinco variedades de pastagens desenvolvidas pela Embrapa hoje ocupam 40 milhões de hectares, ou seja, um quarto de toda a área produzida com pasto. A nossa inserção no agro é muito relevante e significativa. Nós precisamos, obviamente, comunicar mais e melhor”, diz o presidente. Hoje, em torno de 80% do orçamento da Embrapa está comprometido com salários e encargos. É importante colocar que, no mundo todo, essa relação varia de 70% até 85% (orçamento comprometido com salários e encargos), como no ARS (Agricultural Research Service ou Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), a Embrapa dos Estados Unidos, e no Cirad (Centre de coopération internationale en recherche agronomique pour le développement, ou Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento), a Embrapa da França.

Isso porque o principal ativo das instituições de ciência, tecnologia e inovação são cérebros. Sob orientação dos Ministérios da Agricultura e da Economia, a Embrapa está com um plano de demissões incentivadas, com 1.389 pessoas inscritas. Quando essas pessoas saírem, a estatal reduzirá o gasto com folha de pagamento: “Temos autorização do Ministério da Economia para repor 75% das pessoas que saírem. Essas pessoas entrarão na empresa com salários mais baixos. A gente entende que vai conseguir chegar a 65%, talvez 70%, do nosso orçamento comprometido para pessoal e encargos e os outros 30% a 35% para investir em pesquisa.

Com a nova lei trabalhista, e obviamente feitas todas as negociações, nós vamos poder terceirizar, e a terceirização vai nos ajudar a reduzir os gastos com encargos trabalhistas. Todo esse conjunto de medidas vai ajudar a Embrapa em 2020 a ter um orçamento mais equilibrado”. A Embrapa tem hoje 106 mil hectares de terra. É possível disponibilizar parte dessas terras, e esse recurso ser investido na pesquisa.

Em evento em São Paulo, realizado em 5 de agosto, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, deu maior destaque à necessidade de apresentar “um novo projeto” para a principal instituição pública de pesquisa do País do que propriamente definir quem substituirá Sebastião Barbosa, ex-presidente da Embrapa que foi exonerado em 17 de julho e havia sido indicado pelo ex-ministro Blairo Maggi em outubro de 2018, ou seja, a menos de três meses do fim do governo de Michel Temer.

“Queremos ter um projeto de modernização e fortalecimento da Embrapa. O importante é que ela inteira esteja dentro desse projeto para que, aí sim, tenhamos um nome para presidente [da instituição]”, disse a ministra no Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e pela B3.

No mesmo congresso da Abag, Tereza Cristina elogiou Moretti. Para ela, o interino “está levando muito bem” a Embrapa. Outro nome presente nas rodas agropecuárias é o de Francisco “Xico” Graziano, ex-chefe de gabinete no primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ex-secretário de Agricultura e do Meio Ambiente de São Paulo. Mas o nome da vez para comandar a “joia da coroa” é o do diretor executivo da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (Anipc), Eduardo Brito Bastos.

Ex-diretor de Relações Institucionais da Dow Chemical Company e ex-presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), Bastos tem o perfil técnico e de mercado buscado pela ministra. É conciliador e tem trânsito em todos os setores do agronegócio. Moretti e Bastos estão em vantagem, têm suporte para o tão desejado cargo e teriam pouca rejeição para ocupá-lo.

A ministra iniciou há mais de um mês consultas com lideranças do agronegócio para ouvir sugestões de nomes. Além disso, não se sabe a extensão da influência do chefe da Embrapa Territorial, Evaristo Eduardo de Miranda, no processo de escolha do nome do próximo presidente da estatal. Fontes do agronegócio comentam sobre a grande proximidade do pesquisador com o presidente Jair Bolsonaro, mas acham pouco provável que haja interesse de Miranda em assumir a presidência da Embrapa. Não descartam, entretanto, que ele venha a influenciar a decisão de alguma maneira.

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