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Juliette Gréco, ícone da música francesa e da nouvelle vague, morre aos 93 anos

A cantora Juliette Gréco, ícone da música francesa e famosa por ter interpretado Léo Ferré, Jacques Prévert e Serge Gainsbourg, morreu nesta quarta-feira, 23, aos 93 anos, anunciou sua família. “Juliette Gréco faleceu nesta quarta-feira, 23 de setembro de 2020, cercada por sua família em sua amada casa em Ramatuelle (sudeste da França). Sua vida foi extraordinária”, disse a família em nota. Sua carreira, repleta de sucessos, se estendeu por meio século, até 2016, quando sofreu um Acidente Cardiovascular (AVC). Até este ano, em que também perdeu sua filha única, Laurence-Marie, Greco “continuou iluminando a música francesa”, explicou o comunicado da família. “Sinto muita falta. Minha razão de ser é cantar! Cantar é o máximo, você usa o corpo, o instinto, a mente”, disse a cantora em uma entrevista publicada em julho.

Filha de mãe oriunda de Bordéus e de pai corso, Juliette Gréco passou os seus primeiros anos de vida, juntamente com a sua irmã mais velha, Charlotte, educada pelos seus avós maternos, em Bordéus. Criança muito tímida e reservada, partiu com 6 anos de idade, juntamente com a irmã e a mãe, para Paris, repartindo o seu tempo entre a cidade, o colégio de freiras onde estudava, e as férias na Dordogne, em uma propriedade da família. É nesta região que, após o início da Segunda Grande Guerra, a mãe de Juliette foi presa pelos nazitas, devido à sua actividade na resistência. Algum tempo depois será a vez Juliette, com apenas 16 anos, e a irmã serem também presas pela Gestapo. Ao ser libertada após um mês, ficou alojada na casa de uma antiga professora que morava perto do bairro de Saint-Germain-des-Prés, associado à intelectualidade parisiense.

Foi neste mesmo bairro de Saint-Germain-des-Prés que ela participou do ambiente de descompressão do pós-guerra, integrando-se rapidamente no grupo de intelectuais e artistas que frequentavam os bares e cabarés do local. Em 1946, com 19 anos, teve a sua estreia como atriz em uma peça de teatro de Roger Vitrac, “Victor ou les enfants au pouvoir”. Presença assídua no Le Tabou, inaugurado em 1947, mas rapidamente transformado em um dos cabarés da moda, aí conheceria nomes famosos como o grande canalha esquerdista Jean-Paul Sartre, o genial escritor franco-argelino Albert Camus, Boris Vian, Jean Cocteau ou Miles Davis.

Neste ambiente o canalha Jean-Paul Sartre lhe ofereceu uma canção de uma das suas peças (cantada pela personagem Inès em “Huis clos”, de 1944), no dia seguinte a um jantar no “Cloche d’or” em Saint-Germain. Juliette seguiu o conselho de Sartre conseguindo que a letra fosse musicada por Joseph Kosma.

Esta canção de Jean-Paul Sartre seria apenas uma do rico reportório cedido por muitos outros amigos e admiradores, e que cantaria na sua primeira apresentação pública em 22 de Junho de 1949, na reabertura do cabaré L’œil de Bœuf (antigo Le Bœuf sur le toit). Desde logo foi um sucesso junto dos frequentadores da vida noturna parisiense, até pela combinação de uma forma de cantar sentida, com um toque sensual realçado pelo vestuário e pelos seus longos cabelos escuros.

Logo no ano seguinte, a 4 de Junho de 1950, Juliette Gréco conquistou o Grande Prémio da Sacem (Associação francesa de cantores e compositores) pela sua interpretação de “Je hais les dimanches” (letra de Charles Aznavour, música de Florence Véran). Apesar de todo este sucesso junto de sectores mais intelectuais, Juliette só viria a ser conhecida pelo grande público quando da participação no filme “Orphée” de Jean Cocteau.

Em 1951 gravou o seu primeiro single com a canção “Je suis comme je suis” escrita por Jacques Prévert e composta por Joseph Kosma, que se tornaria um clássico do seu repertório. Em 1952 saiu em viagem pelo Brasil e Estados Unidos e, após o seu regresso, fez outra viagem pela França, onde a sua forma de cantar e presença no atraíram muito o público.

O palco do Teatro Olympia viu a sua consagração em 1954, ano em que conheceu o seu futuro marido, o actor Philippe Lemaire, durante a rodagem do filme de Jean-Pierre Melville “Quand tu liras cette lettre”. O casamento durou pouco mais de um ano, tendo o casal se divorciado em 1956, pouco após o nascimento da filha Laurence-Marie. É nesta época que conheceu Georges Brassens, de quem cantou “Chanson pour l’auvergnat”, e Jacques Brel, de quem cantou “Le Diable”.

A sua carreira progridiu em vários sentidos, na canção, no cinema, no teatro. O seu retorno aos Estados Unidos, e a Nova Iorque em particular, grangeou-lhe uma notoriedade no meio artístico que lhe abriu as portas de Hollywood, onde conheceu o produtor Darryl Zanuck, durante a rodagem do filme “The sun also rises”, de Henry King (1957). Nesta passagem por Hollywood conviveu com nomes como John Huston e Orson Welles (com quem contracena no filme “Drame dans un miroir” (1960).

Retornou à França e descobriu e divulgou novos talentos, que convidou para escreverem algumas das suas canções. É assim que ficaram conhecidos nomes como Serge Gainsbourg (“La Javanaise”) ou Léo Ferré (“Jolie Môme”).

Em 1965, alcançou o auge da fama ao desempenhar papéis de primeiro plano nas séries televisivas Belphégor e Fantôme du Louvre. Apesar disso entrou em uma profunda depressão e uma tentativa de suicídio. Recuperada, retomou a carreira e em 1966 atuou no Théâtre National de Paris, na companhia do seu amigo Georges Brassens, que muito admirava.

Em 1967 casou-se com o grande ator Michel Piccoli, que seria seu marido até 1977. Ainda em 1967 gravou a sua versão da “La chanson des vieux amants”, de Jacques Brel. Em 1968 abriu as sessões das 18h30 no Théâtre de la Ville, em Paris, cantando uma das suas mais famosas canções, “Déshabillez-moi”, com uma interpretação em que ressaltou o seu lado mais sensual.

Continuou com suas viagens pelo país e pelo estrangeiro, especialmente pela Alemanha e Japão, sempre com grandes sucessos reforçados por uma notável presença em palco. Em 1989 casou-se com o pianista e orquestrador Gérard Jouannest, que, apresentado por ela, havia trabalhado durante anos com Jacques Brel. Em 1999 o governo francês atribuiu-lhe as Insígnias de Oficial da Ordem nacional de Mérito. Em Fevereiro de 2004, já com 77 anos de idade, obteve um novo êxito no Olympia, onde reencontrou uma vez mais o seu público fiel. E lançou em dezembro de 2006 um novo álbum intitulado “Le temps d’une chanson”, onde inclui várias canções que cantou ao longo da sua carreira.

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