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Morre aos 81 anos Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo

Morreu neste domingo, 1º de setembro, o ex-governador de São Paulo e deputado federal Alberto Goldman (PSDB). Ele estava internado desde o dia 19 no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O líder tucano teve uma hemorragia no cérebro detectada por exames e foi operado em seguida, mas não resistiu. Ex-comunista, Goldman aderiu à social-democracia e se tornou um de seus maiores nomes no País. Desafeto de Goldman desde que este se opôs à sua candidatura a prefeito de São Paulo em 2012, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), decretou três dias de luto oficial.

O velório está sendo realizado na Assembleia Legislativa e o enterro, no cemitério israelita do Butantã, acontecerá às 15 horas dest segunda-feira, 2. Nascido em 12 de outubro de 1937, em São Paulo, Goldman era filho de Dora, uma dona de casa, e de um alfaiate polonês, Wolf Goldman. Seu avô paterno tinha uma pequena loja de tecidos em uma cidade da região de Lublin, no interior da Polônia – recentemente, o ex-governador viajara ao país e tentara encontrar os antigos jazigos da famílias, mas o cemitério havia sido destruído e nada sobrara da memória dos Goldman no lugar. Nem uma lápide. “Impressionante. Os nazistas levaram os vivos e os mortos também”, disse ele.

No Brasil, seu pai começou a trabalhar como alfaiate e, depois, com o irmão montou uma confecção de roupas masculinas. Moravam no Bom Retiro, no centro de São Paulo, bairro que então concentrava a população judaica de São Paulo. Alberto Goldman cursou a Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo, onde se formou engenheiro civil. Ali começou a militância política: “No primeiro ano da Poli me filiei ao partido. A base era grande”. Era 1955. O “partido” era o Partido Comunista Brasileiro, o PCB: “Minha mãe havia sido militante do partido comunista na Polônia. E meu pai não era propriamente militante, mas era próximo”.

O menino conviveu com discussões em casa, durante a guerra, sobre os acontecimentos no mundo: “Fui me aproximando dessa posição”. Participou do movimento estudantil. Quando deixou a faculdade não se vinculou a nenhuma outra base do partido, mas permaneceu ligado ao grupo da comunidade judaica do Bom Retiro ao lado de militantes como Max Altman e Jacob Wolfenson. Trabalhava então em uma empresa de engenharia que ele abriu depois de sair da faculdade. Ligou-se aos Comitês Municipal e estadual do partido, uma militância clandestina.

Tinha já três filhos quando, em 1969, após o Ato Institucional-5 (AI-5) , foi procurado em seu escritório de engenharia pelos dirigentes do partido, Moacir Longo e Hércules Corrêa dos Reis, ambos cassados pelo regime: “Em nome do comitê estadual, eles me comunicaram que o partido queria que eu fosse candidato a deputado estadual”. Os militares haviam acabado de cassar em 1968 o deputado estadual Fernando Perrone (MDB), que era o homem do partido na Assembleia Legislativa. “Resisti durante meses. Não queria entrar nisso. Era um loucura, pois era a pior época para isso (entrar na política)”.

Quando decidiu ser candidato, teve de enfrentar a oposição do pai. “Meu pai fazia campanha contra mim, achando que eu havia enlouquecido. E acho que ele tinha razão”, lembrava décadas depois. Era o começo de uma carreira que não teria mais fim. “Tento, tento e não consigo deixar a política”, dizia o ex-governador. Goldman só aceitou se candidatar porque acreditava que não seria eleito: “Mais do que isso. Eu não acreditava que seria registrado no tribunal eleitoral”.

Quando o desembargador Adriano Marrey recebeu o processo para decidir pelo registro da candidatura, ele disse: “Tem aqui uma série de informações do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), mas para mim informações do Dops não valem nada.” Depois do registro da candidatura, o engenheiro teve de enfrentar a campanha. Goldman lembrava que então a repressão contra o partido não era forte. Mesmo assim, teve os passos vigiados pela polícia política: “Onde eu ia eles me acompanhavam”.

Fazia comícios na porta de fábricas, com um caixote e um megafone para discursar contra o governo. Usava um Fusca para se deslocar. Elegeu-se em 1970 pelo MDB com o apoio do partido. Recebeu 17.226 votos. “Fui eleito pelo trabalho do partido. O partido tinha bases em vários lugares, como entre os ferroviários, na Lapa, na zona norte e na Vila Formosa. E no Estado, na área da Sorocabana e em Santos. Era forte ainda nas associações de amigos de bairro e em sindicatos, como o dos metalúrgicos e o da construção civil”.

Foi o oitavo deputado mais bem votado em sua legenda, o MDB. Depois de eleito, passou a manter encontros com integrantes do Comitê Central em casa e em restaurantes. Os contatos eram esparsos: “Comecei a fazer os discursos que tinha de fazer e meus colegas achavam que eu ia ser cassado”. Com o tempo a repressão se abateu sobre a estrutura do partido, que buscava uma política de frente democrática contra a ditadura militar.

Após as primeiras prisões em 1972, Goldman pensou que seria logo preso. Aproveitou um convite do Departamento de Estado americano para acompanhar as eleições presidenciais entre o republicano Richard Nixon e o democrata George McGovern para ficar 20 dias fora do País: “Quando voltei estava mais calmo”.

Era o início de uma série de golpes da repressão contra o partido: “Por algum fator que não sei explicar, nunca fui cassado”. Atravessou a década de 1970 com certeza de contínua vigilância. Foi avisado por Ivahir Rodrigues Garcia, delegado de polícia e deputado estadual (Arena), que tinha os passos controlados: “Sou teu colega aqui. Você tem duas funcionárias aqui, uma delas é agente do Dops”, disse o delegado.

Goldman nunca manteve nada arquivado, mantinha nomes e endereços na memória: “Sabia que era vigiado e que a qualquer momento podia ser apanhado”. Em 1974, foi reeleito deputado estadual com 75 mil votos. Tornara-se o segundo mais votado do Estado em meio à avalanche de votos dada ao MDB. “Fazia palestras em universidades. Passei a ser uma referência de oposição ao regime. Sempre procurei fazer meus discursos, muito duros, mas nunca ultrapassando uma linha e evitando as agressões pessoais”.

Tornou-se líder da bancada do MDB, que tinha então dois terços da Assembleia Legislativa paulista: “Eu podia aprovar o que quisesse e derrubar o que quisesse”. Conviveu com o governador Paulo Egydio Martins (Arena), que lhe mandava os projetos antes, iniciando uma relação que se transformaria em amizade pessoal. Em 1975, após a prisão e morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do Destacamento de Operações de Informações (DOI), o governador Paulo Egídio chamou a bancada do MDB ao Palácio dos Bandeirantes para um encontro com o presidente Ernesto Geisel. Goldman disse então para o Geisel: “Presidente, estão matando gente em São Paulo”. Geisel ouviu o relato, com a bancada do MDB em torno dos dois. “Eu sei”, respondeu o general.

Meses depois, após mais uma morte no DOI – a do operário Manoel Fiel Filho –, o presidente removeria do comando do 2º Exército o general Ednardo D’Ávila Mello. Para acalmar a linha dura militar, cassaria dois deputados comunistas de São Paulo – Nelson Fabiano e Marcelo Gatto: “Na hora que eu sabia de uma prisão, ia para os jornais denunciar. Era a forma de anunciar que a pessoa havia sido presa para preservar a vida dela”.

Foi assim com o dirigente comunista Marco Antônio Tavares Coelho, preso no Rio e trazido para São Paulo. Ia então para Buenos Aires para encontrar com José Salles, integrante do Secretariado do partido no exílio e homem de confiança do então secretário-geral Luiz Carlos Prestes.

Em 1978, elegeu-se deputado federal com 102 mil votos e seria reeleito em 1982 pelo MDB. Em 1986, após a legalização do PCB em 1985, torna-se líder do partido na Câmara dos Deputados e integrante do Comitê Central. Candidata-se pelo partido e, pela primeira vez, não é reeleito: “Meu voto era muito PMDB. E na lei de então prevalecia o nome do partido”. Tornou-se secretário de coordenação de programas do governo de Orestes Quércia (PMDB) em 1987 e, em seguida, deixou o PCB e retornou ao PMDB. Depois seria secretário de administração.

Em 1990, apoia a candidatura de Luiz Antonio Fleury Filho ao governo do Estado. No quercismo, o ex-governador permaneceria até 1996. Ingressou então com outros emedebistas no PSDB. Em 1990, voltou a se candidatar e a ser eleito deputado federal. No governo Itamar Franco (1992-1995), tornou-se ministro dos Transportes. Como tucano, foi deputado ainda em 1998 e 2002. Em 2006, elegeu-se vice-governador na chapa de José Serra (PSDB), assumindo o governo do Estado em 2010 após a renúncia do colega, que se candidatou à Presidência.

Na segunda-feira, dia 19 de agosto, foi ao hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para tomar antibióticos, mas ficou sonolento. Um exame de tomografia acusou um sangramento no cérebro. Seguiu diretamente para cirurgia no cérebro e teve de ficar sedado na UTI. A família foi orientada a não permanecer por muito tempo no local, pois qualquer estímulo poderia levar a um novo sangramento, que poderia ser fatal. Alberto Goldman deixa a mulher, Deuzeni Trisoglio, cinco filhos e quatro netos.

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